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12 de março de 2026 11 min de leitura

Como surgiu o sobrenome Martins

Martins é patronímico medieval de Martim, derivado do deus romano Marte. Com 2,5 milhões de portadores no Brasil, é irmão do espanhol Martínez.

Igreja de São Martinho em Portugal com torres medievais ao entardecer representando a origem do sobrenome Martins

O sobrenome Martins tem mais de dois mil anos de história antes de chegar ao Brasil. Tudo começa com Marte, o deus romano da guerra, passa por um soldado convertido que se tornou o santo mais venerado da Europa medieval, e chega aos 2,5 milhões de brasileiros que carregam esse patronímico hoje.

Entender a origem de Martins é entender como um nome de deus pagão atravessou o cristianismo, o sistema feudal e o oceano Atlântico para se tornar um dos sobrenomes mais comuns do país.

Martins em números no Brasil

2,5 mi

portadores (IBGE 2010)

1,2%

da população brasileira

19º

sobrenome mais comum

séc. IV

origem do nome Martinho

De Marte ao cristão: a trajetória do nome

A história começa na Roma antiga. O adjetivo latino Martius significava “relativo a Marte”, o deus da guerra. Com o tempo, Martius deu origem ao nome próprio Martinus, que começou a ser usado por romanos comuns, muitas vezes em homenagem ao deus ou simplesmente pela sonoridade.

Esse nome teria ficado restrito à Itália se não fosse um soldado nascido por volta de 316 d.C. em Sabaria, na Panônia, região que hoje corresponde à Hungria. Seu nome era Martinus, que em português virou Martinho.

São Martinho de Tours e a lenda da capa

Martinho era filho de um tribuno romano e seguiu carreira militar. Segundo o relato mais conhecido de sua vida, escrito pelo bispo Sulpício Severo no século IV, Martinho tinha cerca de 18 anos quando, no inverno de 334 d.C., cruzou com um mendigo seminu na porta da cidade de Amiens. Sem hesitar, cortou sua capa militar ao meio e deu uma parte ao mendigo.

Naquela noite, segundo a hagiografia, Martinho sonhou com Cristo vestindo a metade da capa. O episódio o levou ao batismo e, mais tarde, à vida religiosa. Tornou-se discípulo de Hilário de Poitiers, fundou o primeiro mosteiro da Gália, em Ligugé, por volta de 360 d.C., e foi eleito bispo de Tours em 371 d.C., cargo que exerceu até sua morte em 397 d.C.

A lenda da capa se tornou a iconografia clássica de São Martinho: o cavaleiro partindo o manto com a espada. Essa imagem está em vitrais, afrescos e esculturas espalhados por toda a Europa.

São Martinho de Tours foi um dos primeiros santos não mártires a ser venerado no Ocidente. Seu culto se espalhou pela Gália, pela Península Ibérica e pelas ilhas britânicas entre os séculos V e IX, levando pais por toda a Europa a batizar seus filhos com o nome Martinho. Os filhos dessas pessoas tornaram-se, pelos sistemas patronímicos medievais, os primeiros Martins, Martínez, Martini e Martin.

O sistema patronímico: de Martim a Martins

Em Portugal medieval, antes da fixação dos sobrenomes, as pessoas se identificavam com o nome do pai adicionado de um sufixo. O filho de Martim chamava-se “Martins” ou “Martis” (filho de Martim). O mesmo sistema gerou Fernandes (filho de Fernando), Rodrigues (filho de Rodrigo) e Alvares (filho de Álvaro).

Esses patronímicos são estudados em detalhe nos artigos sobre sobrenomes brasileiros e suas origens e sobre a família Alves, outro patronímico de mesma época.

O sufixo -s em português é a marca do genitivo herdada do latim, indicando posse ou filiação. “Martins” = “de Martim”. A mesma lógica vale para João → Joanes → Joannes, que em algumas regiões gerou “Nunes” (filho de Nuno).

A forma do nome variou conforme o idioma:

O mesmo patronímico em diferentes línguas

PaísForma do sobrenomeSufixo patronímico
Portugal / BrasilMartins-s (genitivo)
EspanhaMartínez-ez / -ez
ItáliaMartini / Martinelli-i (plural / filiação)
França / InglaterraMartinsem sufixo
EscandináviaMartinsen / Martinsson-sen / -sson (filho)

Os sobrenomes patronímicos tornaram-se hereditários em Portugal entre os séculos XIV e XV, por ordem régia. Antes disso, cada geração podia mudar o sobrenome conforme o nome do pai. A fixação legal transformou Martins de “filho de Martim” em “família Martins”, passado de pai para filho indefinidamente.

A distribuição geográfica em Portugal

O culto a São Martinho foi especialmente forte no norte e no centro de Portugal. Braga, Viana do Castelo e Aveiro concentravam paróquias dedicadas ao santo, e o nome Martim era frequente nessas regiões entre os séculos XII e XIV.

Portugal tem dezenas de localidades chamadas São Martinho: São Martinho do Porto (Leiria), São Martinho de Sintra (Lisboa), São Martinho do Campo (Porto), entre outras. A devoção ao santo criou um mapa geográfico que coincide com a distribuição do sobrenome.

O norte do Minho e o Douro Litoral têm a maior concentração histórica de famílias Martins. Não é por acaso: essas regiões foram as principais fontes de colonizadores portugueses que partiram para o Brasil nos séculos XVII e XVIII.

Martins no Brasil colonial

A presença do sobrenome Martins no Brasil começa com as primeiras décadas da colonização, mas se intensifica com a exploração do interior nos séculos XVII e XVIII. Bandeirantes, missionários e colonizadores que seguiam para Minas Gerais, São Paulo e o nordeste carregavam o sobrenome de suas famílias portuguesas.

O ciclo do ouro em Minas Gerais (1700-1750) foi especialmente relevante. A corrida por mineração atraiu famílias de todo o Brasil e de Portugal, e Minas tornou-se o estado com maior concentração de Martins até hoje. São Paulo seguiu o mesmo padrão, alimentado pelo ciclo do café nos séculos XIX e XX.

Distribuição de Martins por região do Brasil (IBGE 2010)

RegiãoEstados com maior concentraçãoObservação
SudesteMG, SP, RJMaior concentração absoluta do país
SulRS, SC, PRMisto: origem portuguesa e ibérica
NordesteBA, CE, PEPresente, mas menor que Silva e Santos
Norte / Centro-OesteGO, MT, PAExpansão por frentes pioneiras do séc. XX

A diferença em relação a Silva e Santos é visível no nordeste. Esses dois sobrenomes têm distribuição mais equilibrada entre todas as regiões porque foram usados também por ex-escravizados e suas famílias após a abolição, em 1888. Martins, sendo um patronímico que requer conhecimento do nome do pai, se distribuiu de forma diferente.

Personagens históricos com o sobrenome Martins

O sobrenome aparece em vários momentos da história brasileira e portuguesa. Na literatura e na historiografia, destaca-se Oliveira Martins (1845-1894), cujo nome completo era Joaquim Pedro de Oliveira Martins. Historiador e político português, autor de “História de Portugal” e “O Brasil e as Colônias Portuguesas”, sua obra influenciou gerações de intelectuais brasileiros que buscavam entender a herança lusitana.

No Brasil, o sobrenome marca geografia: o município de Martins, no Rio Grande do Norte, e dezenas de municípios chamados São Martinho em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Cada um desses nomes é um registro histórico do culto ao santo que originou o sobrenome.

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Variantes do nome que geraram Martins

O sobrenome Martins pode ter duas origens dentro do próprio português: o nome Martim e o nome Martinho. São nomes distintos, com sons diferentes, mas ambos derivam do latim Martinus e ambos geraram o mesmo sobrenome.

Martim foi mais comum no norte de Portugal durante a Idade Média. Martinho predominou em regiões de influência clerical mais forte, especialmente perto de mosteiros. Mas o sobrenome resultante dos dois foi Martins, com o mesmo sufixo patronímico.

Martin, sem o -s final, aparece em famílias de origem francesa ou espanhola. No Brasil, é menos frequente e costuma indicar descendência não portuguesa. Já Martinelli e Martinello são formas italianas presentes principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, trazidas pelos imigrantes do Vêneto e da Lombardia a partir de 1875.

Para identificar na pesquisa genealógica se o Martins de uma família tem origem portuguesa ou italiana, o critério mais confiável é o estado de concentração da família. Martins portugueses tendem a estar no sudeste e nordeste. Martinelli e Martinello estão quase que exclusivamente no sul.

Variantes e compostos do sobrenome

O sobrenome raramente aparece sozinho nas certidões mais antigas. O sistema português de identificação combinava dois sobrenomes, geralmente um do pai e um da mãe. Isso gerou uma série de compostos com Martins:

  • Martins da Silva: um dos compostos mais comuns, une dois patronímicos
  • Martins Pereira: Pereira é topônimo (pereira = árvore de pera), combinação frequente em Minas Gerais
  • Martins Costa: Costa é sobrenome geográfico (habitante da costa)
  • Martins Rodrigues: dois patronímicos juntos, indica que tanto o pai quanto a mãe vinham de linhagens com esses nomes
  • Martins de Carvalho: topônimo junto ao patronímico, comum em famílias nobres

Ao pesquisar, é importante considerar todas essas variações. Um documento pode registrar a pessoa como “Antônio Martins” e outro como “Antônio Martins da Silva”, referindo-se ao mesmo indivíduo.

Como pesquisar a família Martins

Checklist para pesquisar a linhagem Martins

  • Anote o município de origem da família: o sobrenome Martins é muito comum, então o local geográfico é o primeiro filtro essencial
  • Identifique o segundo sobrenome da família: Martins da Silva, Martins Pereira ou Martins Costa já reduzem muito o universo de registros a pesquisar
  • Consulte o FamilySearch com o nome completo do bisavô e a cidade: o acervo tem milhões de registros brasileiros digitalizados e é gratuito
  • Para origem portuguesa, os Arquivos Distritais de Braga, Viana do Castelo e Aveiro têm a maior concentração de registros de famílias Martins do norte de Portugal
  • Verifique registros paroquiais anteriores a 1889 (quando começa o registro civil no Brasil): batismos e casamentos em paróquias contêm informações sobre os pais e avós
  • Conheça o roteiro completo em como descobrir suas origens familiares e o guia sobre registros de imigração para encontrar documentos históricos

Perguntas Frequentes

Qual é a origem do sobrenome Martins?

Martins é um patronímico medieval: vem de Martim ou Martinho, nomes derivados do latim Martinus, que por sua vez vem de Marte, o deus romano da guerra. O sufixo -s indica “filho de Martim”. São Martinho de Tours, bispo do século IV, foi quem popularizou o nome Martinho na Europa, tornando Martins um dos patronímicos mais comuns em Portugal.

Martins e Martínez são o mesmo sobrenome?

Têm a mesma origem, mas são sobrenomes distintos. Martins é a forma portuguesa, com o genitivo latino -s. Martínez é a forma espanhola, com o sufixo -ez. Martini e Martinelli são as formas italianas. No Brasil, Martins predomina com origem portuguesa, enquanto Martínez é mais raro e indica descendência espanhola ou argentina.

Em qual região do Brasil Martins é mais comum?

Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro concentram a maior parte dos portadores do sobrenome Martins no Brasil, segundo o IBGE 2010. A explicação está nos ciclos históricos: o ouro em Minas e o café em São Paulo atraíram colonizadores portugueses que trouxeram o sobrenome. No sul, Martins também aparece, associado a famílias ibéricas que chegaram por outras rotas.

Como diferenciar um Martins de origem portuguesa de um de origem italiana?

A forma do sobrenome é o primeiro indicador. Martins (com -s) é português. Martinelli, Martinello e Martini são formas italianas e estão concentradas no sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Se a família está no nordeste ou no sudeste com o sobrenome Martins, a origem portuguesa é muito provável. No sul, vale verificar se há uma forma italiana alternativa nos documentos mais antigos.

São Martinho de Tours influenciou de verdade a popularidade do sobrenome?

Sim, de forma determinante. São Martinho de Tours (316-397) foi um dos primeiros santos não mártires a ser venerado no Ocidente. Seu culto se espalhou por toda a Europa entre os séculos V e IX, levando famílias em Portugal, Espanha, França e Itália a batizar filhos com o nome Martinho. Os filhos dessas pessoas tornaram-se Martins, Martínez, Martin e Martini, dependendo do idioma. Sem a veneração ao santo, o sobrenome provavelmente não teria a distribuição global que tem hoje.

Este artigo foi preparado com o apoio da tecnologia de inteligência artificial e expertise em genealogia da Codecortex.

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